O artigo abaixo tras um breve resumo da história do Haiti que é muito importante para entendermos a situação atual daquele país:
A situação atual do Haiti esconde a sua gloriosa história marcada pelo pioneirismo e pela riqueza e seu estudo nos revela o estrago que os ataques à soberania daquele povo resultaram.
A ilha Hispaniola, onde se localizam o Haiti e a República Dominicana foi o primeiro lugar das Américas onde pisaram e se instalaram os colonizadores espanhóis, foi lá que eles se organizaram para depois lançar ataque ao continente. Já no fim do século XVI, quase toda a população nativa havia desaparecido, escravizada ou morta pelos conquistadores.
Em 1697 a parte ocidental da ilha, onde hoje fica o Haiti, foi cedida à França e se veio a se tornar a mais próspera colônia francesa e sua economia se baseou na monocultura do açúcar, tanto que a economia colonial brasileira entrou em crise diante da concorrência do açúcar produzido nas Antilhas.
Neste momento a população do Haiti já era quase que exclusivamente africana já que a população indígena fora dizimada e a França teve que importar mão de obra escrava da África.
Palco da maior rebelião de escravos até hoje realizada, o pequeno país se fez grande ao pegar o embalo da Revolução Francesa e se tornar livre em 1794 e um ex-escravo, Toussaint l'Ouverture, tornou-se governador geral. Poucos anos depois, as tropas de Napoleão invadiram a ilha Hispaniola e promoveram um banho de sangue e retomaram o poder.
Entretanto a resistência haitiana foi forte e derrotou o exército de Napoleão no auge do seu poderio. Entre os anos de 1803 e 1804 o líder Jacques Dessalines expulsou os franceses e declarou a independência do país, tornando-se imperador. Pouco tempo depois, em 1806, Dassalines foi deposto e morto e, a partir de então, o Haiti passou a ser governado por uma “elite mulata” composta dos descendentes dos antigos colonizadores que possuíam pequenas propriedades.
[Perceba que o período entre a chegada dos africanos como escravos e a chegada dos mesmos ao poder da ilha foi curto (aproximadamente 100 anos), a maioria da população tentava reviver seu modo de produção coletivo que conhecia da áfrica, entretanto já havia uma elite mestiça que possuía pequenas propriedades e, por sua vez, as defendiam e isso se tornou a base dos conflitos políticos que estariam por vir.] Em 1818 o general Jean-Pierre Boyer que comete erros fatais que comprometeram o futuro do Haiti e explica boa parte dos problemas atuais. O primeiro foi a compra do reconhecimento da independência do pais com o pagamento de 150 milhões de francos à França. Esse valor, se corrigido e atualizado para os valores atuais representa algo em torno de 40 bilhões de dólares.
O segundo erro foi a retomada da parte oriental da ilha que estava sob o comando da Espanha. Além do dispêndio econômico da ação militar contra uma região que ainda era colônia espanhola, não mais existia grande unidade cultural e étnica pelo fato da população indígena inicial ter sido dizimada e cada uma das metrópoles ter conduzido a colonização à sua maneira, importando escravos com mais ou menos intensidade, de regiões distintas da África.
Não demorou muito para novas revoltas derrubarem Boyer e o lado espanhol da ilha declarar-se independência e tornar-se a República Dominicana em 1844.
Nos anos seguintes a situação política do Haiti permaneceu conturbada. A população permanecia constantemente em confrontos armados com os governos que ascendiam ao poder, quase todos oriundos da elite mestiça.
Em 1915 os EUA ocupam o Haiti com suas forças militares em uma onda expansionista pela América Central. Seguindo a ufanista concepção do “Destino Manifsto” - que era a ideologia que sustentava a crença de que, por indicação da Providencia Divina, os EUA deveriam manter a ordem em toda a América – Os estadunidenses ocuparam também outros países como o Panamá, República Dominicana, Nicarágua e Cuba. A ocupação Americana no Haiti se mantém até 1934 quando a conjuntura política e econômica mundial obrigou os EUA a mudarem sua postura em relação à América Latina, adotando a política da Boa Vizinhança (veja no quadro ao lado).
[Em 1929 inicia-se uma grande depressão econômica nos EUA logo após a quebra da bolsa de NY. No mesmo período cresceu a oposição dos governos latino-americanos em relação à política agressiva norte americana. Em 1930 Getúlio Vargas assume o poder no Brasiel e, em 1934 lázaro Cárdenas se elegeu no México. Ambos adotaram políticas econômicas de cunho nacionalista e industrialista. Outros fatores também impulsionaram a mudança na política Americana: Hitler já demonstrava suas intenções na Alemanha e o Japão consolidara sua posição na Manchúria. Uma nova guerra mundial era iminente, os alemães rondavam perigosamente os governos da região. Nesse momento a política do “Big Stick” (grande porrete) foi substituída pela política da ‘boa vizinhança’. Em contrapartida ocorreu uma ofensiva no campo cultura, com o aumento do intercâmbio entre os EUA e os demais países do continente. Nesta guerra pelos “corações e mentes” dos latinos-americanos. Hollywood foi mobilizada: Carmem Miranda e o Zé Carioca são frutos típicos desta época.]
Em 1957, origina-se o período mais tarde conhecido como a era Duvalier, com a ascensão de François Duvalier, o Papa Doc ao poder. Uma característica peculiar desse novo ditador é o nacionalismo e o uso da religião tradicional, o Vudu, como ferramenta de dominação.
Até então o vuduísmo fora marginalizado e o cristianismo imposto sistematicamente. Mas, o novo ditador instituiu uma verdadeira dinastia teocrática, se proclamando não só governante vitalício, mas como um orixá.
Com a morte de François em 1971, seu filho, Jean-Cloude - o Baby Doc, assume o poder com apenas 19 anos e governa até 1986 quando, enfim, a população consegue se organizar contra o governo.
O padre Jean-Bertrand Aristide, ligado à teologia da libertação, iniciou a carreira política nos últimos tempos da ditadura de Baby Doc. Em 1990, elegeu-se presidente, com programa reformista, com quase 70% dos votos, devido ao apoio das populações miseráveis, tanto negras quanto mestiças. Põem, em 30 de setembro de 1991, o Bush pai, na presidência USA, depôs Aristide e o substituiu por militares. Aristide refugiou-se nos Estados Unidos, sob as asas do Partido Democrata que o influenciou, modificando bastante suas convicções políticas.
Sob os novos ventos liberais, agora já com Bill Clinton no governo dos EUA, Aristide volta ao poder em 1994, porém já com um novo programa de governo que privilegiava o capital dos EUA com a criação de diversas zonas francas onde se instalaram indústrias “montadoras” que exploram a mão de obra barata dos haitianos sem pagar impostos.
Com essa política que apenas aprofundou a miséria no país, Aristide passou a sofrer uma forte oposição. Em 2000 foram realizadas eleições na tentativa de legitimar a continuidade de Aristide no poder, entretanto foram levantadas grandes suspeitas de fraudes e a situação de Aristide se tornou delicada. Em fevereiro de 2004, conflitos armados eclodiram pelo norte do país e, gradualmente, os insurgentes assumiram o controle da região, diante da ameaça, Aristide deixou o país e asilou-se na África do Sul.
A partir de então o país passou ao comando de uma força militar da ONU, operada principalmente pelo Brasil, mas sob o comando, é claro, dos EUA.